Crise: do vocábulo grego krisis. Define figurativamente “conjuntura perigosa; momento perigoso e decisivo”. Eu disse figurativamente?

De há uns meses para cá não se enche o povo de outra coisa que não isto; perdão, ou Futebol. Vistas bem as coisas, acaba por ser tudo o mesmo…acabamos por nunca deixar de falar de Futebol. Acompanhem-me: Portugal tem quatro lados (vá vá), o único jogo que sabemos fazer por estas terras é aquele em que temos de chutar algo com os pés: seja uma bola de futebol, seja uma lata de Coca-Cola, seja uma pessoa, seja um povo inteiro, seja a culpa, seja a honestidade. E também há os grandes: o grande Benfica (como me enervam as pessoas que dizem “CARREGA BENFICAAAAAA”. Mas carrega no quê? No êmbolo da seringa de esteróides?), o coitadinho Sporting (o SCP é um bocado como o PCP da liga de futebol profissional: teve um marco importante na história, mas hoje em dia ninguém lhe dá a devida credibilidade), o PUÓÓÓRTO. Na vida real existe outro grande: o Estado! Os que estão do lado dele sobem, os que estão contra (os que, apesar da empreitada em que toda a gente sabe que estamos metidos) estão mal.

Tenho tentado manter-me diariamente a par do que se vai passando, leio Jornais económicos, informo-me de modo a que não pareça um total parolo desengonçado e que não sabe do que fala. Aquilo que, para mim, tem falhado é numa coisa TÃO SIMPLES como: conhecimento básico e trivial que nos permite tirar ilações correctas. Vejo todos os dias gente a falar sobre a “Concertação social”, sobre as meia-hora a mais que têm que trabalhar, isto e aquilo, e ainda mais um par de botas. Falta-nos entender que temos que remar e trabalhar todos na mesma direcção; não é os burriquitos a andar à volta da nora e os outros de papo para o ar atrás das garinas! Não é uns trabalharem de sol-a-sol, enquanto outros batalham ferozmente (mas feroz mesmo!) em frente à Assembleia da nossa Républica porque a austeridade (aparentemente a palavra mais pesquisada no ano de 2011. Bons sinais!) veio para ficar, sabendo que é totalmente necessário! Ok, agora acalentei pequenas feras atrás de monitores de computador porque recebem a menos para o mais que trabalham…correcto, entendo, estou do vosso lado! Mas temos que perceber que é trabalhando um pouco mais que todos geramos riqueza, para que todos consigamos sair deste buraco em que, (in)conscientemente, nos fomos metendo aos poucos. A culpa não é do indivíduo que está ao meu lado, não é do meu irmão que está na sala, da minha mãe que emigrou para Angola. É de todos, parte de mim porque querer sempre esbanjar mais do que posso, parte do povinho que, em vez de querer a Quarteira, quer a Polinésia…parte de todos sabermos o que fizemos para isto e também parte de todos o esforço adicional.

Já ouvi milhares de vezes dizerem que não se sente agora o efeito da austeridade, que só daqui a uns anos é que voltamos aos mercados, que não devemos criar muitas expectativas momentâneas. Mas desde que todos consigamos fazer o esforço para que, daqui a uns anos, os nossos filhos, netos, bisnetos e por aí em diante, possam não ter um terço da azafama porque a nossa geração passe hoje! E acredito eu que, no tempo dos meus pais tenha sido pior; agora há iPads, há tecnologia, há máquinas que fazem coisas por nós, há comodismo. E é desse comodismo que temos que sair! Revoltem-se…mas saibam pelo que se revoltam! Gritem…mas saibam pelo que clamam! Respeitem quem, acima de vocês, tenta remar o barco para bom porto enquanto nós trabalhamos 8 horas por dia e dormimos e comemos nas restantes.

Levantem-se por vocês, sejam a mudança que querem ver no mundo (desde que, obviamente, isso não passe por andar a partir os candeeiros com os pés porque ainda não é socialmente aceite), informem-se. A bem ou a mal, esta expressão encaixa na perfeição: “A ocasião, faz o ladrão”. E por muito que me custe a acreditar, o ladrão neste momento é a única pessoa que neste momento sabe perfeitamente como gerar a sua riqueza e não descansa enquanto não a possui. Se calhar falta-nos ser mais ladrões (no bom sentido, crianças), falta-nos olhar para a crise como a oportunidade de singrar, a oportunidade de almejar aprender e ser alguém como deve ser e não um bêbedo qualquer, um maltrapilho qualquer.

Acordem cidadãos que o barco Portugal já largou a costa e só os sensatos se safam e têm lugar. O resto é carga em excesso num Portugal tão frágil como uma canoazinha que pode tombar a qualquer momento.

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