(música para este momento)

Uma coisa que aprendi e que retive neste fim-de-semana foi que os grandes homens têm, muitas vezes, destinos inglórios. Aprendi que o sentimento de perda é um grande bloco de arame farpado, bem difícil de digerir, simplesmente não passa, mata-nos a nós também. Não suporto a ideia de perder alguém que amo, alguém que me pertence e nunca tinha lidado com tal.

Sei que já havíamos sido mais próximos, apercebi-me disso quando revi o álbum inteiro das minhas fotos de criança ontem e tu estavas lá. Não sei, de facto, porque o deixámos de ser. Agora que olho para trás, vejo onde falhei, onde todos falhámos…agora é fácil, agora que é tarde e o tempo não volta mais, agora que as lágrimas correm enquanto te escrevo. Não me vou esquecer dos últimos dois meses, das visitas, dos minutos, dos sorrisos, da esperança e da expectativa de te ver sair daquele quarto pelo teu pé, de como tu contavas tudo diariamente, da tua lucidez, do conhecimento, da sapiência, do riso e da voz que agora não estão lá. Nunca mais me vou esquecer das últimas coisas que me disseste, de me perguntares pelos meus irmãos, de me dizeres como a minha barba era mais bonita que a tua…com a diferença que a minha não representa um quíntuplo, um sexto, um décimo, um vigésimo daquilo que tu viveste, daquilo que tu passaste. Não me vou esquecer da luta diária, da força e do exemplo que nos deste a todos, da perseverança e do acreditar que sempre tiveste e nos passaste. Sei que não gostavas que te chorássemos, que fossemos simples, comedidos, que agíssemos de forma normal, sem grandes alaridos. Quem me dera poder ter despedido de ti como deve ser, dar-te um abraço final, dar-te o último beijo, dizer-te o “Até sempre” que me ia marcar. Não pudeste ver, mas quero que saibas que no Adeus estive trajado, como tu tanto gostarias de me ter visto. Dizem que os grandes homens vão, mas as suas obras ficam, a sua memória permanece, o orgulho é enorme. Seria egoísta de mim, de todos nós, querer que ficasses com dor, com sofrimento…sei que ao menos estás melhor que nós, em paz, sem dor, sem mal. Obrigado por teres sido um marco e um modelo de vida. Sei que nos vais guardar a todos. Um beijo enorme.

Esta seria a despedida que teria feito e teria sido perfeita, ainda que não dizendo tudo porque é difícil.

Até Sempre, Avô Zé.

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